O professor do desejo Philip Roth

Resenha – O professor do desejo (Philip Roth)

Você já se apaixonou por um personagem?

Isso aconteceu comigo ao ler ‘O professor do desejo’, de Philip Roth, que conta a história de David Kepesh desde sua infância, quando vivia no hotel de propriedade de seus pais judeus em um destino popular entre famílias de empresários de Nova York, até a vida adulta, quando se torna um professor de literatura comparada em universidades americanas.

Comprei esse livro, editado pela Companhia das Letras, há algum tempo e ele estava abandonado aqui na minha estante e resolvi levá-lo na minha viagem de férias. Não consegui ler muito durante a viagem, mas terminei na volta.

Nunca tinha lido nada do Philip Roth, mas quando comecei o livro, tive a impressão de que o personagem, Kepesh, não me era estranho. Então, me lembrei de que um outro livro dele, o ‘Animal agonizante’, que nunca li, mas foi a base para um dos meus filmes preferidos, chamado ‘Fatal’, que conta a história do mesmo professor Kepesh, em uma outra fase da vida. Eu já simpatizava com o personagem por causa do filme, mas depois de ‘O professor do desejo’ ele se tornou um dos meus preferidos.

E, meodeos, como esse Roth escreve bem! Sua escrita é deliciosa e de fácil compreensão, sem ser banal. A narrativa, apesar de sofisticada e de incluir referências a muitos autores e obras literárias, não cai no pedantismo e não se torna hermética.

A forma como o autor conta a história foi um dos motivos pra que eu gostasse tanto do personagem. Durante o livro todo, Kepesh vive o dilema entre seguir o que considera ser sua natureza, que é ceder aos desejos e viver aventuras sexuais passageiras, e o que é esperado dele por sua família de origem judaica, seus colegas professores e a sociedade em sim.

É maravilhoso como ele passa o tempo todo analisando meticulosamente suas atitudes, suas decisões e, até mesmo, seus pensamentos, comparando o que gostaria de fazer com o que é o certo, o ideal ou esperado dele. Em alguns momentos, recriminando a si mesmo e, em outros, criticando a sociedade. Em muitas dessas análises faz paralelos com trechos de obras ou com a vida de autores como Tchekhov e Kafka.

Preso a essa dicotomia, Kepesh vive insatisfeito com os relacionamentos que tem com as mulheres. O modelo de família judaica exemplar e as expectativas dos pai, um self-made man, que começou como assistente de cozinha e conseguiu construir seu negócio próspero e com clientes fiéis no setor hoteleiro, e da mãe, uma ex-secretária executiva totalmente metódica, responsável durante toda a vida por manter a ordem nos negócios do marido, têm enorme peso nas decisões e nas reflexões do professor. No entanto, o desejo de ser livre para se aventurar em novas paixões também o acompanha em todos os momentos.

Quando jovem, Kepesh recebe uma bolsa e vai estudar na Europa e passa um ano se aventurando com uma amante sueca, explorando as fantasias mais profundas de ambos, enquanto se reprime por não dar atenção aos estudos e pensando que seria melhor ter assumido o namoro com a amiga da garota, uma moça educada, de boa família que carregava alguns pudores.

Em um outro relacionamento, Kepesh se apaixona por uma mulher também aventureira, que havia abandonado a universidade e a família para viver viajando com amantes por países asiáticos e retornara aos EUA quando um deles propõe assassinar a esposa. Essa falta de amarras e a vida desregrada e superficial, ao mesmo tempo em que o atrai, o irrita profundamente e faz com que vivam uma relação de amor e ódio.

No entanto, quando encontra alguém que proporciona a ele a vida pacata que buscava, continua se questionando se sua natureza aventureira permitirá que consiga manter a relação por muito tempo.

Esse conflito entre seus desejos e a moral podem ser percebido nas duas passagens seguintes, a primeira, uma conversa com seu psicólogo, e a segunda, suas reflexões pessoais:

“‘A delinquência moral’, ele observa, ‘exerce um fascínio sobre o senhor.’ ‘Assim como’, observo, ‘sobre os autores de Macbeth e Crime e castigo. Desculpe mencionar os títulos de duas obras de arte, doutor.’ ‘Está bem. Escuto de tudo aqui. Já estou acostumado.‘ ‘Tenho a impressão de que vai um pouco contra as regras da casa apelar para as minhas reservas literárias nas nossas ecaramuças, mas o ponto que estou tentando enfatizar é que a delinquência moral vem ocupando a mente de pessoas sérias por muito tempo. E, de qualquer modo, por que delinquentes? Não seria melhor dizer espíritos independentes? Não é menos coreto.’ ‘Só estou sugerindo que não são pessoas totalmente inofensivas.’ ‘Pessoas totalmente inofensivas levam uma vida bastante limitada, não lhe parece?’ ‘Por outro lado, não se deve subestimar a dor, o isolamento, a incerteza e tudo mais de desagradável que pode acompanhar esse tipo de independência.’”

“No mês seguinte, com um caderno apoiado nos joelhos e algumas observações preliminares na cabeça, volto todas as noites à ficção tchekhoviana, ouvindo os lamentos angustiados dos infelizes que se veem aprisionados na armadilha da vida em sociedade, as esposas bem-educadas que durante o jantar com convidados se perguntam ‘Por que estou sorrindo e mentindo?’, e os maridos que, aparentemente prósperos e seguros, não passam de um aglomerado de ‘verdades convencionais e logros convencionais’. Ao mesmo tempo, observo como Tchekhov, de forma clara e simples, embora tão impiedosa quanto Flaubert, revela as humilhações e os fracassos – pior ainda, o poder destrutivo – daqueles que procuram escapar da concha de restrições e convenções, do enfado pervasivo e do desespero sufocante, das situações conjugais dolorosas e da falsidade social endêmica, rumo ao que imaginam ser uma vida vibrante e desejável.”

O professor é um homem comum, confuso e, muitas vezes, fraco, com dúvidas que muitos de nós provavelmente já viveram. Meu fascínio vem, em grande parte, da forma como Roth consegue desenhá-lo tão bem, com tanta profundidade e delicadeza ao mesmo tempo e faz uma crítica, sem impor uma conclusão, sobre o que faz uma pessoa mais feliz: seguir seus impulsos ou se adequar a uma vida adequada às expectativas sociais.

Agora, estou ansiosa para ler ‘Animal agonizante’ e ver como o autor deu continuidade à história do professor que lecionava sobre o desejo na literatura, mas que tinha tanta dificuldade em entender seus próprios desejos.

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