Resenha: Não sou uma dessas (Lena Dunham)

Não sou uma dessas Lena Dunham

O primeiro livro que li em 2015 foi ‘Não sou uma dessas’, da Lena Dunham. Não era um livro que eu estava procurando e nem esperando ansiosamente ser publicado, mas quando vi na livraria resolvi comprar por dois motivos: primeiro, a capa é bonita e me chamou a atenção, segundo, vejo muita gente falando (bem e mal) sobre ela e sobre o trabalho dela na série ‘Girls’, colocando-a como uma forte representante do feminismo hoje. Ela tem, por exemplo, aproveitado a visibilidade que ganhou para falar sobre planejamento familiar a aborto em palestras e entrevistas.

Nunca assisti a série, mas pelo que sei, tem gerado muita polêmica por a atriz aparecer frequentemente nua, mesmo não tendo um corpo de acordo com os padrões de beleza atuais, e pelas cenas de sexo cruas e realistas.

De acordo com Lena, desde o início do seu trabalho como roteirista e atriz, com a webserie ‘Delusional Downtown Divas‘, criada em conjunto com as amigas Joana e Isabel quando ainda trabalhavam como vendedoras em uma loja de roupas de crianças, buscou mostrar a realidade que vivia. “Eu sentia falta de criar coisas, o sentido que essa atividade dava a essa longa caminhada que chamamos de vida. Uma noite, quando nos arrumávamos para outro evento para o qual não tínhamos sido exatamente convidadas, me dei conta: isso é alguma coisa. Por que não contamos essa história em vez de vivê-la?”, diz ela em um dos trechos do livro.

Não sou uma dessas’ segue a mesma linha. É, assumidamente, uma autobiografia com histórias e personagens reais, apesar de ela ter dito, depois de algumas críticas a respeito de assuntos polêmicos tratados, como estupro e abuso da irmã quando era criança, que não necessariamente tudo o que está ali aconteceu da forma como foi narrado.

Nao sou uma dessas livro lena dunham ilustracoes capa interna
Apesar de a edição nacional, da Editora Intrínseca, não ser de capa dura como a original, ela tem essas ilustrações fofas na parte interna da capa.

O ponto forte do livro está justamente nessa proposta de autenticidade e transparência da autora, que tornam seu trabalho tão próximo da realidade, ao mesmo tempo em que conquista fãs, gera rejeição. Ela fala sem pudor sobre o que viveu e o que sentiu, na maioria das vezes, em situações totalmente banais pelas quais a maioria dos jovens já passou e tal banalidade é o motivo de tanta identificação criada com seu público.

Lena Dunhan em I’m not that kind of girl x Hannah em Girls

Quem leu o livro e acompanha ‘Girls’ diz que é incrível a semelhança entre a personagem principal da série, Hannah, interpretada pela própria Lena, e a personagem do livro. Mas, em uma matéria da edição de fevereiro da revista Elle americana, Lena é descrita pela repórter como uma pessoa extremamente educada, atenciosa e preocupada com as pessoas a sua volta, completamente diferente da Hannah egocêntrica que vive em ‘Girls’ e da personagem de ‘Não sou uma dessas’.

Talvez, o comportamento atual de Lena seja sinal do amadurecimento proporcionado pela vivência de ter grande parte da responsabilidade pelo seriado de sucesso, que, segundo ela, na mesma matéria, se reflete também na trama. “Esta foi a primeira temporada em que eu basicamente não andei por aí todos os dias com medo de que seria despedida e isso torna a experiência muito mais prazerosa, diz ela à Elle.

No entanto, no livro, a falta de maturidade da autora fica evidente, tanto na forma quanto no conteúdo. É basicamente um conjunto de memórias, contadas sem sequência cronológica, divididas pelos temas amor e sexo, corpo, amizade, trabalho e panorama. Alguns personagens e histórias aparecem em um capítulo e são retomados em outro, mas, como são mencionados de forma superficial, a narrativa se torna um pouco confusa e às vezes fica difícil lembrar quem é quem.

Não sou uma dessas livro lena dunham ilustracoes
‘Não sou uma dessas’ é cheio de ilustrações fofas. Esse é um dos capítulos que eu mais gostei, em que ela fala sobre o machismo no ambiente de trabalho.

Quando li na contra capa que a The New York Times Magazine a considerou “a voz da geração atual, na mesma medida em que J. D. Salinger e Woody Allen o foram para as gerações pós-guerra”, esperei uma escrita e uma narrativa mais profundas. Porém, o livro é praticamente um diário pós-adolescente, com uma narrativa simples, de fatos cotidianos e sem muita profundidade. A maior complexidade da personagem é o fato de ser, como a maioria dos jovens, insegura mas tentar impor uma auto-confiança expressa na forma de uma importância exagerada dada a si mesma, como ela mesma avisa na introdução da obra:

“Tenho vinte anos e me odeio. Meu cabelo, meu rosto, o formato da minha barriga. A maneira como minha voz soa hesitante e piegas. (…)

Dissimulo esse ódio com um tipo de autoaceitação agressiva. Pinto o cabelo de amarelo fluorescente e faço um corte estilo mullet, mais inspirada nas fotografias de mães adolescentes dos anos 1980 do que em qualquer tendência atual. Uso uma roupa de elastano brilhante que ressalta todas as minhas gorduras. (…) meu bloqueio criativo está tão ruim que comecei a traduzir poemas escritos em línguas que não falo, um tipo de exercício surrealista que supostamente vai me inspirar, mas também vai evitar que eu tenha aqueles pensamentos perversos e recorrentes que surgem do nada: sou horrorosa; vou estar internada num hospital psiquiátrico quando tiver 29 anos; nunca vou ser alguém.

Você não diria isso se me visse numa festa. No meio da multidão, sou imprudentemente alegre, muito bem-vestida com roupas de brechó e unhas postiças, lutando contra o sono provocado pelos 350 miligramas de remédios que tomo todas as noites. Danço feito louca, rio feito louca das minhas próprias piadas e faço referências superficiais à minha própria vagina, como se ela fosse um carro ou uma cômoda. (…)

Tenho a sensação incômoda de que minhas verdadeiras amigas estão me esperando depois da faculdade: mulheres incomuns cujas ambições são tão grandes quanto suas transgressões passadas.”

Para superar o sentimento de inadequação, a autora cria uma certa indiferença blasée, que transforma em coragem para se expor e fazer o que quer, do seu próprio jeito, sem se importar, aparentemente, com a opinião dos outros. E esse fazer com autenticidade é o exemplo deixado por Lena até agora, na obra e na vida.

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